Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Piratini:

A Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Piratini, construída na década de 1850. Fotografia: Erasmo Pinheiro.

Piratini é um dos mais antigos municípios do Estado do Rio Grande do Sul, localizado na região das Serras do Sudoeste, tendo sua fundação datada do ano de 1789, no mesmo ano em que os franceses tomavam a Bastilha e instauraram a Revolução Francesa, o então Distrito de Cerro Pelado, da Vila de São Pedro de Rio Grande recebia seus 48 primeiros casais Del-Rey, vindo do longínquo Arquipélago dos Açores, Portugal. O governo português sentia a necessidade em povoar a nova terra, e viu nos açorianos o povo ideal para tal. As ilhas do arquipélago estavam superpovoadas e as oportunidades eram únicas.
José Antonio Alves possuía uma estância, localizada sob uma coxilha, na margem direita do Rio Piratini na década de 1780, e foi obrigado a dividir suas terras em várias sesmarias, por meio de uma Carta-Régia, assinada por D. Maria I, rainha de Portugal.
Os primeiros imigrantes que aqui chegaram ergueram uma capela em honra a Nossa Senhora da Conceição, em frente a sede da estância de José Antônio Alves. Esta capela recebeu o nome de Capela de Nossa senhora da Conceição do Capão Grande de Piratinym, inaugurada em 1812. A atual igreja foi construída em 1854. A palavra “Piratinym” vem do tupi-guarani, significa “peixe-barulhento”, que banha-se nas águas dos rios que cortam a região. A vila foi crescendo aos poucos e sua maior importância vem da época da Revolução Farroupilha (1835-1845), da qual serviu como primeira capital.
Ao fim da revolução Farroupilha, em 1845, a então cidade voltou a condição de vila, por decreto imperial. Com isso, pouco desenvolvimento se teve em sua economia, tendo sido também povoada por outros imigrantes, tais como espanhóis, alemães e italianos. Pelo último censo, possui cerca de 20.614 habitantes (Censo do IBGE, 2010). Seu ponto mais elevado é o Cerro do Sandi, no 1° distrito, possuindo cerca de 510m de altitude. É banhado pelas águas do Rio Piratini que corre no rumo do sul e pelo Rio Camaquã, que corre no sentido leste. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Lillian Gish, a Lady do Cinema Americano


Lillian Diana de Gish, mais conhecida como Lillian Gish, nasceu na cidade de Springfield, em Ohio nos Estados Unidos, no dia 14 de outubro de 1893. Se pai James Lee Gish era alcoólatra e devido a decadência econômica da sua família, ela e sua irmã Dorothy, decidiram pela carreira artística. Contando com apenas 5 anos de idade, estreou no teatro, ao lado de Dorothy Gish, na peça Convict’s Stripes.  Aos 15 anos, no ano de 1912 estreou o seu primeiro filme “The Musketeers of Pig Alley”, um filme mudo de curta-metragem, dirigido por David W. Griffth, com a duração de cerca de 17 minutos. Foi também em 1912 que estreou junto de sua irmã em “O inimigo invisível” (An Useen Enemey). O dinheiro obtido através de sua atuação nesse e em outros filmes de curta-metragem amenizou, razoavelmente, a situação econômica de sua família. Esse filme seria apenas o primeiro de muitos outros sucessos de Lillian, muitos deles dirigidos por D.W. Griffith. Sob a direção de Griffith, Lilian atuou em cerca de 40 películas, que lhe renderiam o título de “A Lady do Cinema Americano” ou “ A Primeira Dama do Cinema Mudo”. Estrelou em 1915 o filme “O Nascimento de Uma Nação” (The Birth of a Nation), e “Intolerância” (Intolerance), de 1916, que alavancaram a sua carreira de atriz. Ela foi, numa época onde os atores e atrizes faziam caras e bocas em filmes, uma atriz inovadora pela maneira de sua atuação profunda e impecável, além de ter uma beleza frágil e angelical, símbolo de heroínas frágeis e destemidas que interpretou. As irmãs Gish são até hoje os maiores ícones do folclore americano no cinema mundial.
Gish protagonizou ao lado de Richard Barthelmess em 1919 o filme “Lírio Quebrado” (Broken Blossoms), um filme de baixo custo de produção, que nos dias de hoje é considerado como apenas uma peça de teatro filmada, devido a utilização de apenas dois sets de filmagens. Esse filme de David W. Griffith é totalmente oposto a O Nascimento de Uma Nação que foi um filme de altíssimo custo e grande sucesso de bilheteria.
Lillian e Dorothy Gish, como Louise e Henriette, em "Orphans of the Storm", em 1921. 
Cartaz promocional do filme "Orphans of the Storm", 1921. 
No ano de 1920, dirigiu sua irmã e seu cunhado na comédia “Remodeling her Husband”. Infelizmente o primeiro filme dirigido por Lillian perdeu-se, não restado nenhuma cópia. Ainda em 1920, durante as gravações de “A Inocente Pecadora” (Way Down East), há uma cena em que a personagem de Lillian, chamada Anna Moore, está em fuga de seu suposto marido, e cai em um rio congelado e desmaia sobre um pedaço de gelo flutuante. Os blocos de gelo tiveram de ser feitos de madeira, já que na região onde o filme foi gravado não havia gelo nessa época do ano, porém contudo a atriz machucou sua mão direita devido á um pequeno acidente nas gravações dessa cena. Em 1921, as irmãs Gish protagonizaram um drama, na direção de Griffith, intitulado “As Órfãs da Tempestade” (Ophans of the Storm), já em longa-metragem, que narra a história de duas irmãs de criação, Louise e Henriette que vivem uma separação dolorosa e tem como pano de fundo a Revolução Francesa. “O Vento” (The Wind) em 1928 foi o primeiro filme em que Lillian atuou sob a direção de outro diretor, Victor Sjöström.
Lillian Gish ao lado de Lars Hanson, em "The Wind" (1928)
No ano de 1927, Alan Crosland produziu o primeiro filme de longa-metragem parcialmente falado: “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), o que levaria a indústria dos filmes mudos ao declínio. Os filmes mudos haviam sido grande sucessos nas décadas de 1900, 1910 e 1920, tendo sido alguns ainda gravados na década de 1930. Como advento dos filmes sonoros, Lillian passa a se dedicar ao teatro na Broadway. Em 1931 atuou no filme “His Double is Life”.
Lillian, ao contrário de muitos artistas da era do cinema mudo conseguiu manter-se brilhantemente atuando nos filmes sonoros na década seguintes, não só em filmes, mas em programas televisivos. Passou a atuar como coadjuvante, nunca tendo ataques de estrelismo, sempre como a mesma simplicidade e meiguice de sempre. Foram alguns outros de seus filmes: “Duelo do Sol” (Duel in the Sun), em 1947, “A Noite do Caçador” (Night of Hunter), em 1955 e “O Passado não Perdoa”, em 1960.
Lillian recebendo Oscar Honorário em 1968. 
Lillian jamais casou-se ou constituiu família. Escreveu sua própria biografia em 1968, no mesmo ano que sua irmã e companheira de uma vida toda Dorothy morreu. Lillian cuidou de sua irmã durante meses a fio, até seu último suspiro de vida. Nunca ganhou o Oscar, mas ganhou um Oscar Honorário por sua contribuição ao cinema no ano de 1971, além de muitos outros prêmios.
Seu último trabalho em um filme foi “Baleias de Agosto” (The Wales of August), em 1987, aos 93 anos, onde interpretou Sarah,uma simpática senhora, ao lado de outros dois grandes atores do cinema mundial: Bette Davis e Vicent Price.
Lillian quando lançou sua biografia, em 1968. 

Lillian Gish em seu último papel, como Sarah Webber, em "Baleias de Agosto", em 1987. 
A grande atriz Lillian Gish, morreu aos 99 anos, de causas naturais, em 27 de fevereiro de 1993, na cidade de Nova York, deixando um vasto trabalho nas telas de cinema por mais de 85 anos.




 Pesquisa e Texto: Erasmo Pinheiro.





segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A História da Moda Feminina, do início do século XIX aos anos 1950:

A Primeira metade século XIX:
Costuma-se definir a moda no século XIX como a moda ligada ao romantismo, com seus vestidos de armação, botas, leques, cabelos longos e presos.  Os vestidos feitos com tecidos pesadíssimos passavam a imagem austera e ao mesmo tempo de uma elegância ímpar. O espartilho foi um item indispensável para as senhoras da alta sociedade, principalmente nos grandes centros urbanos, como Paris e Londres. 
Nos primeiros anos do século XIX, entre 1804 á 1815, o período conhecido como “Período do Império” ou “Neoclássico”, a moda era ditada pelas grandes damas da sociedade francesa e consistia em vestidos longos, até os pés, comumente nas cores branca, bege e nude para as senhoritas. As senhoras e viúvas eram adeptas de cores mais sóbrias, como o preto e marrom. A cintura era alta e levemente marcada pelo espartilho, e também eram usados laços de cetim sobre o tecido do vestido. Quando Napoleão Bonaparte foi coroado imperador na França, investiu fortemente para promover a França como a grande ditadora de moda no mundo. Devido ao aquecimento climático europeu na era Napolêonica, procurou-se minimizar a quantidade de tecidos, o que só havia existido nos primórdios da Antiguidade e, que só seria visto novamente na  década de 1920 do século XX. Numa primeira impressão as mulheres podiam ser comparadas ás vestimentas gregas da Antiguidade, já que o traje desta época trazia muitos elementos deste período, dai o nome Neoclássico (releitura do classicismo).  Por baixo dos vestidos era usado uma espécie de pantalona, que mais tarde evoluiria para o sutiã moderno, chamado de divórcio. Os rufos voltaram a moda em tamanhos discretos neste período, sempre acompanhados de um xale discretos, além de uma série de acessórios que eram indispensáveis as mulheres deste período, tais como luvas, sombrinhas, sapatos (que eram tipo sapatilhas ou bailarinas), leques, etc.  Usava-se colares, porém discretos.
Os cabelos eram quase sempre penteados e repartidos ao meio, com cachos, e sempre que fossem á um passeio na rua, eram escondidos debaixo de “bonnets”, um tipo de chapéu de abas largas e que cobriam as orelhas.
No Brasil, em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, fugida após Napoleão Bonaparte decretar o Bloqueio Continental, a Missão Francesa reformulou o estilo de vida da população da Corte. Vários artistas vieram da Europa, tais como pintores, arquitetos e modistas. Pode-se dizer que foi o início do mundo da moda no Brasil.
A fase seguinte da moda, também ditada pelas francesas e agora juntamente com as inglesas, foi conhecida como fase da Regência, ou Era Georgiana. Foi a transição do Neoclássico para o Romântico, num curto período de tempo, de 1811 á 1820. As barras dos vestidos agora eram abertas, ao invés de serem retas até o tornozelo, como no neoclassicismo. Na Inglaterra, os vestidos nessa época ganharam um tom mais romântico, com suas mangas com enchimentos. Outras mudanças foram a volta do corset em formato pontudo e as saias em formato de cone, sustentados por várias anáguas e sobre estas usavam-se capotes e o sobretudo. Os penteados e chapéus ficaram cada vez mais sofisticados.  Muitos dos aspectos deste período foram inspirados no estilo da Rainha Elizabeth e posteriormente pela rainha Vitória do Reino Unido.  Segundo as normais morais impostas pelo governo Vitoriano, o estilo Neoclássico era visto como indecente.  Mais tarde, durante o final da Era Vitoriana e início da Era Eduardiana (final do século XIX e início do século XX), esses dois estilos tornaram-se verdadeiras relíquias e não eram mais mal vistos, contribuíram assim em vários aspectos para a moda desta época.

Outra grande fase da moda no século XIX foi a Era Vitoriana. Ao assumir o trono inglês em 1837, a rainha Vitória seria a grande baluarte da moda no período de tempo de seu reinado.  O conceito de mulher ideal para a rainha era o da mulher bondosa, maternal, e acima de tudo, recatada.  Os chapéus eram com grandes abas, os vestidos com as suas anquilhas e crinolinas, feitos em tecidos mais pesados que antes, com vários corpetes, despontando a imagem de mulher doce e ao mesmo tempo recatada, suas mangas em estilo bufante desciam até os pulsos, mostrando pouco do corpo feminino. As botas eram os sapatos da época, juntamente com os espartilhos. O cabelo era sóbrio sem grandes penteados, geralmente amarrado junto á cabeça ou levemente enfeitados com cachos.  O ideal de beleza trazia á público a preferência por mulheres altas, magras e com a pele pálida.
Na primeira metade do século XIX surgiu um novo acessório, a handbag, que aperfeiçoada com o passar dos anos iria tornara-se a bolsa.
A invenção dos navios á vapor, do trem ajudou a espalhar a moda europeia pelas colônias americanas, africanas e asiáticas, não restringindo a moda ao continente que ditava o estilo de vestir no século XIX.
A Imperatriz Eugénia de Montijo, esposa de Napoleão III, imperador da França foi grande incentivadora do uso da crinolina, uma espécie de armação posta sob o a saia, deixando-a com uma armação suntuosa.
A moda nas décadas posteriores no Brasil, já uma monarquia, era imitada pelas damas da alta sociedade, baseado nos modelos vestidos pelas imperatrizes, que eram atendidas por estilistas vindos da Europa, principalmente da França.

A Segunda fase da Era Vitoriana:
Por meados da década de 1860, as saias passaram a ser retas na frente e com volume apenas na parte traseira, perdendo um pouco do volume de tecido da fase anterior, que poderia a pesar cerca de 15kg, mais compridos, deixando tecido a arrastar pelo chão com vários babados ornamentando saias e vestidos. As mangas eram mais retas e um pouco mais curtas. O chapéu perdeu bastante cultural espaço para os grandes penteados, enfeitados com laços e fitas. Luvas também foram acessórios de forte uso da época. Foi o período em que menos se mostrou o corpo feminino.  Este tipo de estilo caiu em desuso no fim do século XIX, com o fim do reinado de Vitória e o início da era Eduardiana. Foi também nessa fase do reinado de Vitória que seu governo impulsionou a política Imperialista, que várias nações europeias seguiram o modelo de colonizar vários territórios na África, Oceania e Ásia. Muitas tensões políticas e militares também ocorriam na Europa, como as unificações de vários pequenos reinos que mais tarde formariam novas potências econômicas, como a Alemanha e Itália.
 

A Belle Époque e A Era Eduardiana:

A Belle Époque foi um período histórico, artístico e cultural, durando de 1870 á 1914. A moda sofreu grande influência da Art Noeuaveu e o Impressionismo movimento surgido na Europa. A Revolução Industrial e o surgimento do automóvel também influenciaram a sociedade, surgindo assim um estilo de vida boêmia.
A partir do final do século XIX, em meados de 1888, uma nova revolução estética surgiu. Os vestidos perderam os seus volumes traseiros, deixando-os novamente em formato cônico, com cintura bastante marcada pelos espartilhos no formato de S, mas ainda sim mais leves, românticos e femininos.  Os chapéus voltaram a moda e agora com vários adornos em sua copa, ou ainda com fabulosos e rebuscados penteados. As sombrinhas passaram a ser um acessório indispensável para as damas da sociedade, assim como a bolsa de mão ainda bastante discreta.
Nos primeiros anos do século XX surgiam os cabarés, com suas dançarinas trajando vestidos leves e com pouco tecido, com bastante o que viria a influenciar a moda nos próximos anos.  Outro porém foi o surgimento das novas vanguardas artísticas que surgiram juntamente com o novo século, tais como o Cubismo, Dadaísmo, Fauvismo, Futurismo, etc.
As tensões políticas que se arrastavam na Europa no final do século XIX e início do XX culminariam no que a história designou como a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A sociedade sofreu profundas mudanças nos quatro anos da guerra que devastou a Europa e quebrou assim muitas ligações que ainda havia com o século XIX.

1914-1919:
Os quatro anos de duração da Primeira Guerra Mundial provocaram profundas mudanças socioculturais na Europa e consequentemente no mundo todo. Por conta da grande tensão provocada pelos conflitos bélicos, abafou-se o mundo da moda. Destacaram-se grandes estilistas nesse período, os quais viriam a contribuir para a grande virada no mundo da moda na década seguinte. Madeleine Vionnet, Coco Channel e Paul Poiret com suas costuras de alto nível revolucionaram a moda, banindo de vez o corset, os espartilhos e os longos vestidos, que passariam a ser estilo “barril”, em formato cilíndrico, pouco mais curtos, da altura da canela até a batata da perna, permitindo o uso de sapatos mais confortáveis, e o uso de meias e cintas ligas sob os vestidos.  Eram roupas confeccionadas em tecidos mais leves e práticos do que os das décadas anteriores, geralmente de algodão e flanela, perdendo um pouco do feminismo.  O cinema foi uma das poucas distrações da população que vivia em constante vulnerabilidade devido as batalhas que ocorreram por toda Europa. Os estúdios como a Paramount, Warner Bross, Kalem Studios, Fox e Universal construíram as bases de Holliwood, que seria até os dias de hoje, a capital do cinema.  Charles Chaplin. Douglas Fairnbanks e D.W Griffith produziram dezenas de filmes neste período, tornando-se os grandes expoentes do cinema, até os dias atuais, uma vez que suas produções cinematográficas traziam alegria ao mundo dolorido pela guerra. As primeiras e grandes estrelas de cinema deste período foram: Lillian e Dorothy Gish, Clara Bow, Edna Purvience, Mary Pickford, Mae Marsh entre outras, em filmes mudos tais como “O Nascimento de Uma Nação (1915). Vários cineastas tentaram sem sucesso, unir os efeitos sonoros a imagem do filme. Isso só seria concretizado em 1927.
A partir do final da guerra, em 1918, começou uma nova grande revolução sociocultural e econômica em todo mundo.
Os anos 1920:
Ao final da Primeira Guerra Mundial o anseio de viver a vida intensamente foi a grande força que moldou um novo estilo de viver, começando na Europa e Estados Unidos, sendo adotada em todo o mundo.
A década de 20 foi o período da história em que as mulheres ganharam autonomia, podendo gozar de privilégios até então proibidos á elas, como trabalhar fora de casa, fumar em público, etc. Os cabelos foram cortados na altura do rosto, a moda la garçonn, as sobrancelhas raspadas e riscadas á lápis, o uso do chapéu ficou restrito ao uso diurno, enterrado até os olhos no estilo clochê. Os sutiãs substituíram os espartilhos, trazendo o estilo de cintura tubular. Eram as melindrosas, mulheres modernas que frequentavam os salões, traduzindo a alegria do pós-guerra. Os vestidos leves e vaporosos que a partir de então foram encurtados até a altura do joelho substituindo os desconfortáveis (e nada práticos) vestidos das décadas anteriores, provocaram grande recusa dos mais conservadores na sociedade, pois as meias em cores nude e branca davam a ideia de  pernas nuas, confeccionados com tecidos leves (principalmente a seda), também mostrando decotes mais ousados. Isso proporcionou as mulheres dançarem as danças vigorosas, como o Charleston, o Foxtrot e o Jazz nos salões, que foram muito frequentados nesse período. A boca era em formato de coração e os batons em tons como o carmim.
A estilista francesa Coco Channel lançava uma moda atrás da outra, com seus blazers, colares compridos, os cortes retos e práticos. Outros estilistas do período foram Jean Patou e Jacques Doucet, os quais vestiam as grandes atrizes da época, como Mary Pickford, Marlene Dietrich, Glória Swensom e a dançarina norte-americana Josephine Baker, que se tornaram referenciais de moda nos “loucos anos 20”. No ano de 1927 estrearia o primeiro filme falado, The Jazz Singer (O Cantor de Jazz), dirigido por Allan Crosland, que a partir de então declinaria a indústria de cinema mudo.
Nessa época surgiram as primeiras roupas de banho, como os maiôs e as roupas esportivas, uma vez que nesse período popularizou-se a prática dos esportes, como o futebol, tênis e as corridas de automóvel.
Porém a euforia e o espírito de alegria intensa dos anos 20 teriam fim no dia 24 de outubro de 1929, quando ocorreu a o anúncio público da grande queda na Bolsa de Valores de New York.  A década de 1930 iniciaria assim sob o signo da decadência econômica, passando a história como a Grande Depressão, o que impreterivelmente afetaria o mundo da moda.

Anos 1930:
Após a grande crise de 1929, a ordem no mundo todo era racionar os gastos.  Descobriu assim com toda essa crise, as pernas sem meias, os banhos de sol, os esportes, com o uso das bicicletas que passou também a ser de uso feminino. O uso das boinas surgiu assim junto com os anos 30, virando sinônimo de elegância e prestígio. A moda dos anos 1920 havia descaracterizado a elegância feminina das décadas anteriores e nos anos 1930 as formas tornaram-se justas e sóbrias, com um toque elegante, prático e esportivo, redescobrindo o jeito feminino de vestir.  Boleros e capas também foram um dos pontos fortes da moda nos anos 30. As saias ganharam um pouco mais de comprimento, justas sem o uso de meias sob elas, os sapatos ganharam pequenos saltos e discretos e os cabelos eram geralmente mais compridos, na altura dos ombros. Os tecidos usados na confecção das roupas eram mais grosseiros que os da década anterior, geralmente em algodão, o cânhamo e até palhas. Madeleine Vionnet, Coco Channel e outros tantos estilistas continuaram a vestir as grandes estrelas do cinema americano, que neste período teve um grande sucesso de público com suas produções. Greta Garbo, Bette Davis, Katherine Hepburn, Marlene Dietrich eram as grandes estrelas de cinema da década, sendo referenciais de moda e comportamento.
Nesta década, na Europa ocorreu a ascensão dos regimes totalitários com Benito Mussolini na Itália e Adolf Hitller na Alemanha. As tensões políticas que iniciaram em 1919 com o Tratado Versalhes, arrastando-se por as décadas de 1920 e 1930, culminariam em 1939 no conflito que passaria a história como a Segunda Guerra Mundial, que se só terminaria em 1945.

Os anos 1940:
A moda dos anos 1940 era em estilo militar, ombros sóbrios e os sapatos pesados. Surgiram as fibras sintéticas, os botões, as pregas, os bolsos e os cortes extravagantes. Os cabelos eram pouco mais longos geralmente ondulados, presos por grampos, acompanhados por boinas ou chapéus e lenços atados no pescoço.
Os seis anos de duração da Segunda Guerra Mundial forçaram os estilistas a fecharem os seus ateliês e refugiarem-se em locais seguros dos bombardeios das forças aéreas alemãs e japonesas que assolaram países como a França, Inglaterra e o Japão. O racionamento de poder econômico fez com que usasse o pouco de tecido que ainda restaria após a devastação de plantações ao redor do mundo.  Surgiram os decotes mais avantajados e os tecidos floridos. O estilista inglês Charles James inovaria com a produção de moda em massa.  Devido ao isolamento da França e a Inglaterra, os Estados Unidos teve maior liberdade para inventar a sua própria moda.  No ano de 1945 a guerra chegaria ao fim, trazendo alívio ao mundo todo. Em 1946 o estilista Louis Reard mostraria ao mundo o biquíni, usado pela modelo Micheline Bernardini, e que foi ajudado a ter mais aceitação pelo mundo do cinema.
Em 1947 Christian Dior faria sua primeira exposição, trazendo em seus looks elementos da moda de 1860, que se tornariam febre nos anos de 1950.






Os anos 1950:
A moda dos anos 50 trouxe elementos de períodos anteriores, porém fazendo uma releitura do vestuário feminino, tornando- as mais femininas. Foi a época do glamour. Os vestidos eram mais volumosos e ao mesmo tempo mais leves, com pregas e a cintura bem marcada, nos estilos godê ou lisa. As maquiagens popularizaram-se neste período. Os cabelos eram compridos usados tanto soltos quanto presos bastante volumosos. Foi nessa época que surgiu o penteado “rabo de cavalo”. As tintas de cabelos e loções alisadoras e fixadoras também começaram a fazer parte da vida das mulheres.  Brincos, pulseiras e colares também ganharam destaque.  O uso das calças também foi extensivo ás mulheres, combinadas com sapatilhas modernas.  
Foi nessa década que Coco Channel voltou ao cenário da moda mundial, já que havia se afastado com o início da Segunda Guerra Mundial, mostrando ao mundo toda sua genialidade na criação de novos estilos de roupas. Também destacaram-se as criações do estilista Yves Saint Laurent.


As mulheres queriam vestir-se como as grandes atrizes de Hollywood, destacando-se Grace Kelly, Audrey Hepburn e Marylin Monroe.
Pesquisa e texto: Erasmo Pinheiro.



















sábado, 19 de julho de 2014

Tal que é.

Fiz de tudo que se pode imaginar. Engoli o ar seco pela boca. Obriguei o sono a ir embora, pular da minha cama e saltar pela janela. Carreguei água nas mãos e não deixei nenhuma gota fugir por entre os meus dedos. Enfrentei apenas com o olhar os raios e trovões que fulminavam nos céus nas tempestades de verão.  Sentia-me corajoso por isso.
Lembro o quanto vivi com tudo isso. Poderia descrever cada detalhe. Cada palavra. Cada gesto. Não me arrependo de nada, nem mesmo de ter me iludido.
Sei que falar de sentimentos é algo batido e que muitos falam, mas eu sempre gosto de lembrar e sentir um pouco da emoção que pode criar numa pessoa tal sentir.
São pequenos fragmentos que fazem uma grande vida. Descobertas, sustos, risos, choros, partidas, rastros deixados por nós na vida de outros. Inclusive dos ventos que graciosamente acariciam nosso corpo.
Esperança como dizem é a última que morre. A morte é o final desta vida. A passagem do (des) conhecido, para o desconhecido. A vida em todo, não nos é conhecida. Vamos conhecendo aos poucos. Construindo dia após dia. Tentar ser feliz, nós é concedido a grande dádiva a cada dia.
Então são duas metades paralelas: esperar por a realização de nosso desejo, ou atirar-se de peito no que passa por debaixo de nossos olhos. É uma decisão que só cabe a nós mesmo. Mesmo que já tenhamos tentado fazer de tudo o que se possa imaginar e ter chorado até a última lágrima de saudade de alguém.

De maneira única, o tempo passa, não importando o que se faça. O que difere é como nós o preenchemos, sendo nos amando e indo atrás de algo que nos faz falta, sendo prostrando-se na cama, abafado até os olhos já inchados de tanto chorar, ou amando-se em primeiro lugar. 

sábado, 29 de março de 2014

Apresentação!

Bom dia, boa tarde ou boa noite!
Me chamo Daiane e fui convidada a participar do blog, depois de um tempinho eu acabei aceitando o convite e cá estou. Nasci e moro atualmente em Blumenau – Santa Catarina, sim, a terra da Oktoberfest, a terra das flores, da cerveja e das alemoas das coxas brancas.

Sobre o que eu escrevo e como eu escrevo:
- Escrevo +18 e mais +16. Sim, muito sexo e putaria como o povo bem gosta.
- Poesia. Mas não é bem poesia... São mais textos reflexivos ou algo que possa ser classificado como isso.
- Histórias originais e histórias específicas de fandons específicos, ou seja, histórias fictícias (fanfics) baseadas em filmes, livros e séries.
- Textos sobre aleatoriedades e assuntos do momento.

Enfim, vocês vão entender ao longo das postagens...
Ah por ultimo, mas não menos importante: Meu português. Eu cometo erros assim como todos cometem o tempo todo. Tento ao máximo escrever corretamente mas é impossível acertar o tempo todo. Alguns erros aqui e ali sempre vão aparecer, então peço desculpas desde já por estes erros futuros.
Era isso pessoal, espero que gostem do meu material aqui no blog. Fiquem bem e voltem sempre! 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Diário de Manuela 02.

Pelotas, 12 de agosto de 1854.
Agora é tarde.
Mas tarde para que? Para viver? Para sair por ai? Para deixar aquela lágrima carregada de dor, cair sobre a maçã do meu rosto?
Nunca é tão tarde para fazermos as coisas acontecerem.
Desde que aquele olhar guapo se desfez de minha frente, não vejo beleza alguma nas coisas. Fui abraçada pelo manto da infelicidade.
O céu azul que aquele guapo homem trazia consigo aos dias meus, foi desfeito, e em seu lugar surgiu um céu negro, carregado com pesadas nuvens, que choram assim como os olhos meus.
Tornei-me a mais sentimental e sensível de todas as mulheres, que pode partilhar de todos, o seus sofreres.
Tão moça e tão frágil. Eu, que sempre quis manter a figura de uma moça forte e culta, que lê poemas e romances, gosta de ouvir as histórias contadas pelos mais velhos e que sempre tive opinião própria, quando me vi diante daquele corsário italiano, descobri que toda aquela cultura adquirida não era nada.
Aos poucos, aquele tempo ao lado de Giuseppe, vão ficando para trás, como a parte mais bela e sublime de minha vida. Algo sobrenatural, fictício de tão maravilhosos que foi. Como uma dessas histórias que leio nos livros, daqueles romances que emocionam as pessoas que os leem.
Mas ele se foi. Era seu destino. Eu só serei uma lembrança do Continente, que talvez ele leve pro resto da vida. A mim, ele significou tudo. Um rastro de luz no céu, a gota d’água no deserto.
Guardo dentro de mim aqueles momentos, que por mais que eu chore, não voltam mais.
Fico por ai, pelos cantos desta casa, relembrando o tempo que morava no campo. O tempo que morte rondava os homens da minha família e até mesmo Garibaldi. Rezava ardorosamente, de joelhos em frente ao altar, no Oratório da estância de tia Ana Joaquina, pedindo proteção aos homens de minha família, mas pedia mais fortemente, pela vida do corsário. Era o que cabia a nós mulheres. As mais velhas, rezavam, cuidavam dos jovens, cuidavam de quase tudo. Nós as moças, ajudávamos no que podíamos, rezávamos, nos preparávamos para que quando a guerra terminasse, e os nossos prometidos voltassem, nos cassássemos e cumpríssemos nossos papéis. Não a mim.
Ainda hoje rezo por Garibaldi, onde quer que ele esteja, peleando, seja por mar ou por terra, sempre será o maior motivo de todos os meus pensamentos elevados á Deus.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Diário de Manuela, 01.

Pelotas, 23 de setembro de 1902.

Hoje está um lindo dia. Um dia onde o cantar dos pássaros, faz morada nas luzes imanadas pelos raios do Sol. Ah suave canto.
Hoje, tudo foi como sempre foi, ocorrendo da maneira mais natural possível, a mim.
Um pensamento me assaltou pela manhã, pouca antes de levantar-me da cama. Um desses pensamentos que surgem do nada e vai se desenrolando pelo infinito da minha mente velha e cansada.  Fui, e sou uma completa louca, como atestam os meninos que passam por aqui, todas as manhãs. Sim uma louca! Ninguém em pleno gozo de suas faculdades mentais espera quase 60 anos por um homem que sabe que já morto, seria impossível de retornar aos seus braços.  Canso-me de repetir para mim mesma que aquele romance já passou. Porém, há algo dentro de mim, como uma chama que teima em continuar acessa, não me deixa pensar em desistir. Mas desistir do quê?
A vida, para mim não seguiu seu curso normal. Não culpa da própria vida, mas minha, só minha.
Sempre cultivei dentro de mim essa esperança, de que um dia ele voltaria para os meus braços, e sorriria e sua doce voz diária: Eu voltei Manuela! Com o passar do tempo, sua imagem, sua voz, foram sendo encobertas por a cerração do tempo. Todas as noites, quando fechava os olhos, eu os exprimia, para que de certa forma, conseguisse segurar dentro de mim aquelas lembranças.  Os anos foram passando e a sua imagem ia se distanciado como um trem num túnel, indo de modo reverso, sumindo para nem eu sei onde. 
E assim eu passo os meus dias, esperando que a morte me leve daqui. Lembrando-me dessas coisas, que me fizeram um dia, sentir-me viva.  Hoje em dia, nem vivo mais. Apenas existo. 

Às vezes me representa que as pessoas pensam o mesmo, que á muito estou morta. Se eu fosse parar e analisar, já faz cinco anos que ninguém vem me visitar. A última viva alma que entrou aqui perguntando por mim, foi um neto de Mariana, depois disso, nunca mais voltou. Trouxe-me notícias dos últimos parentes vivos que ainda moram por Camaquã. Como eu não tinha muito assunto, o rapaz logo se foi. A quem interessaria essas minhas histórias sovadas pelo tempo?  Contar a quem os causos da Revolução, das façanhas de Bento, e Garibaldi? Já quem ninguém se interessa, conto ao meu diário, meu velho companheiro de longa data. Ele nunca se cansará de me escutar, e nem eu, de á ele confidenciar tudo...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Último Romance.

Sabe aquela música que você ouve e ela é sua situação cantada? Pois no meu caso, é a música “Último Romance”, do Los Hermanos. Ela é uma das poucas músicas que me tocam de uma maneira que a voz de Marcelo Camelo, o intérprete, me soa tão bem aos ouvidos.
“Eu encontrei quando não quis
Mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
Antes um mês e eu já não sei

E até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena

Ah, vai
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
A fim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia, eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei e quis duvidar
Tanto clichê, deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
Ter fé e ver coragem no amor

E só de te ver, eu penso em trocar
A minha TV, num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir aonde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar

Ah, vai
Me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém
A fim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona
Pra te acompanhar”
A música tem esse poder de nos fazer feliz ou não, trazer de volta nossas lembranças.
Último Romance, em particular, foi uma música que eu sempre gostei desde que eu comecei a entender o que é uma música. Mas á mais ou menos um ano atrás eu soube que ela era minha “música tema”.
É algo difícil de explicar, mas eu amo essa música, por que quando eu a escuto, eu vejo minha situação como um clipe musical. Na parte “Eu encontrei e quis duvidar/ Tanto clichê, deve não ser”, eu me lembro de certo dia, em novembro de 2013, quando eu olhei pro lado e dei-me de conta de quem era que eu estava gostando.
Vão se as pessoas e ficam as músicas, as lembranças.

E se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona, pra te acompanhar...

sábado, 5 de outubro de 2013

Diário 2.

Camaquã, 23 de Outubro de 1838.
As gotas da chuva já não molham meus lábios como antes. Se bem que sempre tive receio de sair na chuva. Sempre me acomodei com o que as vontades ao meu redor desejavam.
Segui pela rua. Precisava seguir.
Antes de seguir diante, um pequeno parêntese: As pessoas julgam sempre um livro pela capa. Moça rica e cheia de beleza, tão feliz...
Retomando o assunto do inicio, seguia eu pela rua. Voltei para dentro da casa da minha tia. Ninguém quis tocar piano hoje, e isso é bem ruim. Há dias que escutar música é um dos únicos prazeres que tenho. Sim música. Tão bom poder ter as minhas músicas e mergulhar num mundo só meu. Onde eu posso ser quem eu quiser ter todos que quero ter. É fantasioso, mas pelo menos é onde tudo é perfeito, onde as melodias da música embalam meu viver.
Seguem os dias, eles nublados, chuvosos, ensolarados, seguimos sempre. Seguem. Sigo eu escutando música.
De um assunto emendo noutro. Sempre faço assim. Sempre. Nem eu consigo me entender por vezes. É como se eu fosse expectadorade minha própria vida.
Chove garoa e logo abre Sol. Aqueles raios de Sol, que nascem nos meio das nuvens no céu e veem ilumina os campos.
Sigo em frente.
Passamos, gastamos muito tempo de nossa vida preocupados com o que os outros vão dizer ou falar a nosso respeito. Deixamos de viver por medo de nós mesmos, de não sermos suficientemente bons para com nós mesmos. Nada vai recuperar o tempo perdido, este tempo que vivemos para os outros e não para nós mesmos. Vivemos maquiados, mascarados, sorrindo falsamente para os outros. Ou até mesmo segurando lágrimas que teimam em nos ocorrer nos olhos. O tempo só segue cada vez mais rápido.
Os últimos dias têm sido bastante diferentes. Foram três noites seguidas que eu sonhei com ele. Dizem que os sonhos são os grandes anseios da gente, que de tanto pensar ou desejar acabam entrando em nosso subconsciente. O ruim de sonhar é perceber que é tudo ilusório.
Bem, bem. Fora tudo isso, já se vão três anos desde que os Farrapos invadiram Porto Alegre, e já se fala que a Província se tornou uma República. Os homens desta família, empolgados com este clarim de liberdade dos desmandos do Império, encilharam seus cavalos e se juntaram as tropas de Bento Gonçalves. Nesta terra, ficar em casa em tempo de Guerra é coisa pra mulheres e crianças. Inda sorte é que a família dele não se envolveu nessa peleia, porém estão de mudança pro Uruguai, onde há paz. Isto será uma despedida minha dele.
Bueno, quando esta função de Guerra se terminar, fico só imaginando o povo do Rio Grande, que terá de reerguer esta Província sacudida pela derrama de sangue que se fez nos últimos anos. O que farei eu daqui pra frente? Talvez nada de diferente do que fiz até agora. Sendo que no ano que viemos pra estância de minha tia, prometi que só casar-me-ia depois que o Rio Grande estivesse em paz.
Pois prometi a minha mãe, e agora terei de cumprir? Não posso trair-me. Não conseguirei me casar com nenhum outro homem que não seja ele. Não consigo. Não posso!
Por falar, mais uma vez nele, a última vez que o vi, foi num sarau, em comemoração ao casamento duma prima distante, que teve na vila. Ah como estava belo! Como sempre, com aquele sorriso tímido, com aquele jeito tão doce. E eu burra que só, ao invés de ir conversar com ele me acanhei num canto perto das outras moças. Falamos muito pouco, e mais uma vez eu sempre que podia me fazia de dura e indiferente. Não sei o porquê faço isso, mas faço. Tento disfarçar ao máximo que posso todo o amor que sinto por ele. Se eu demonstrar isso, talvez seja pior para mim. Então irei guardar isso dentro de mim, como algo que me mantem viva.

Sigo em frente, sempre em frente...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Diário.

Pelotas, primavera de 1902.
A luz do Sol, nem ao menos adentrou pelas janelas do sobrado hoje.
Choveu incessantemente, desde manhã. Grossas gotas de chuva, que poderiam lavar-me a alma. Mas não, as gotas nem se quer perto de mim chegaram.
Para mim foi um dia igual ao outros todos. Trancada dentro do quarto, se fazer mais que existir.
Por única novidade, diário, vos conto que ontem a primavera voltou ao Rio Grande. Ah primavera! Com suas auroras perfumadas ao jasmim e o bem-me-quer! Ah se ao menos eu pudesse voltar ao campo e encher meus pulmões com o perfume das flores silvestres.
Por pouco não me distraio, com estes meus anseios, que perante minha condição física, se fazem impossíveis. Coisas que as pessoas que moram por ai, não dão importância, mas que eu, velha e sem forças daria um dos poucos dias desta minha vida, que me restam para poder sair por ai e apreciar.
O campo, a estância, as lembranças que lá guardam. Os seus fantasmas de épocas passadas, que rondam a casa grande. Não foi uma época feliz aquela, havia guerra. Havia a derrama de sangue pelo Pampa. Eu tive que ficar trancafiada naquela casa, junto das outras. Foram dez anos, que para mim, por vezes passavam num piscar de olhos. Noutros, depois do amargor da desilusão, foram se arrastando, e arrastando, até os dias de hoje. Virei um fantasma, que vaga por este quarto, arrastando correntes pesadas, batendo grilhões do tempo.
Bueno. Isso ficou num passado distante. Junto das doces lembranças do meu amor. Junto de minha juventude. De todas as moças da família, eu uma das mais velhas, sou a única ainda viva. Viva? Viva ou encarcerada neste quarto, que mais parece um mausoléu? Poderia eu, ter me casado com aquele primo com que minha mãe tanto queria. Sim, guardado dentro de mim aquele amor e ter feito como todas as outras, seguido os moldes que os nossos pais queriam. Ter me casado, por casar afirmo, ter sido uma esposa que nem as outras todas, ser mãe, cuidar do lar, e esperar meu marido voltar das revoluções e guerras, volta e meia assolavam a Província. Poderia. Mas não o fiz. Fiquei solteirona. Quando a Revolução terminou em 1845, tive de deixar a estância e voltar para Pelotas. Minha mãe me martirizou e olhou-me com desgosto até o fim de seus dias. Ela teve apenas a mim de filha que ficou solteirona. Os meus irmãos e minhas irmãs fizeram a vontade de meus pais, consorciaram-se com cônjuges de escolha deles. Moças e rapazes de famílias de boa índole e de terra de baixo da sola dos pés.
Meu pai era mais flexível que minha mãe. Sabia que seus filhos tinham sentimentos. E sempre perguntava á nos se era também de nosso gosto se casar com quem era a nos escolhido. Isso fazia com que minha mãe dissesse que ele nos dava ousadia demais. Ou como ela mesma falava “Vosmecês não tem de querer, tem é de casar com quem os mais velhos decidissem.”  E assim era. E ficou pior depois que só o cavalo de meu pai voltou da Revolução, lá pelos idos de 1843. Coube a ela cuidar de nosso encaminhamento na vida. De mim e das outras duas filhas e um filho que ainda não tinham se casado. E uma filha sua, membro de uma das famílias mais tradicionais, era algo impensável de sair pelo mundo com um aventureiro, sem eira nem beira. Fiquei dias trancafiados no quarto até que ela julgasse que havia passado aquela insanidade.
Na verdade essa “insanidade”, nunca passou. Ainda espero, e só deixarei de esperar a volta de meu amado, no dia que meu coração parar de bater. Isso, talvez se dê, por essa primavera, ou talvez no verão, outono e até mesmo no amargo inverno. Nunca sabemos quando iremos partir deste mundo de gente sofredora e má. Nunca. Ainda sou insana, madre...
Bueno. Después o verão é uma estação calorosa, porém a mim tanto faz. E logo volta o outono. E por fim o inverno.
Sempre foi assim sempre será um dia após o outro. Não importa se estamos felizes ou reduzidos a pó. Eles sempre se renovam. Sempre...

sábado, 14 de setembro de 2013

Mais uma história, sem o "Final Feliz".

Fins de julho. O ano era de 1890.
Sentada á beira da janela num fim de tarde de inverno. O vento que vinha galopando pelas coxilhas do Pampa, agora adentra as janelas do velho sobrado. Sim, aquele velho sobrado no centro de Pelotas, fronteado para a praça da igreja, serve de residência para a velha senhora de cerca de 80 anos.
A única companhia que a vida lhe deixou, foi a própria solidão, que se mantinha fiel á ela. Presente em todos os momentos de sua vida, desde que ela tinha 17 anos. Desde então sua vida se tornou insólita e vazia, deixando- a viver como um ser vazio.
Seus olhos azuis foram à última beleza que a vida por devaneio talvez, não lhe tirou. Estes eram sempre, nos fins de tarde, presos na imensidão do horizonte. Procuravam, aquele rapaz, que a tantos ano havia deixado de fazer parte de sua vida. Deixado talvez não, pois ele sempre vinha visitar ela, quando esta fechava suas pálpebras, desejando com todas suas forças que ele estivesse ali, dentro de um mundo só dela. Era apenas fisicamente ausente.
 Um mundo aonde, ele ainda vinha lhe ver, com aquele sorriso doce, que somente ele sabia esboçar.
O vento frio transpassava sua pele enrugada e seus cabelos fracos e tordilhos pelo rigor dos anos. Balançava as cortinas de seu quarto. Sabia que o frio lhe faria mal a saúde, já debilitada pela idade. Mas nada mais lhe importava. Talvez queria mesmo que a ceifa da morte lhe tragasse a vida.
Não tinha nada mais a desejar da vida. Faziam quase 63 anos que havia se despedido de seu único amor. E aquela imagem era, em sua lembrança tão nítida, mesmo havido transcorrido mais de meio século. Era um dia de Sol, numa manhã. Ainda sim podia sentir novamente sua respiração acelerar, e suas mãos tremerem. Aquele dia havia fica marcado para sempre, como um divisor de águas, que dia após dia, ia lhe matando. Mas que por maldade divina não lhe matava de uma vez só. Se bem que cada dia que vivemos, é um a menos que temos de vida. Foi uma difícil despedida.
Eram bons amigos. Uma dessas amizades que surgem do nada e se tornam a cada dia mais forte. E ela, a pobre moça, teve a sublime e infeliz sorte de se apaixonar pelo amigo. É, assim do nada, um dia notou que amava incondicionalmente seu amigo. E não se via mais sem ele por perto. Olhava, desde então o mundo com os olhos brilhando, inundados deste amor.
Um moça, que já era, desde muito nova, prometida pelos pais á uma primo que morava distante dali. E este amigo, agora á ela confidenciava suas desventuras amorosas. E ela sofria junto dele, em silêncio, e nada podia falar. Sabia que o coração dele era do mundo, das artes, era livre. E aquilo foi somente crescendo dentro dela. Havia encontrado aquele que sempre havia habitado seus sonhos, os mais magníficos sonhos.
A cada dia que conhecia-o mais, mais tinha certeza de que era ele quem moraria dentro de seu peito para toda sua vida.
Foi á época mais feliz da vida dela. A época em que sentia flutuar sentia seus pulmões se encherem de ar e dar ânimo ao sua alma.  Na simplicidade de seu amor, somente de tê-lo presente em suas manhãs, já era uma vitória sem preço. Agora ela, no fim de sua vida, podia perceber que aquele amor viera em sua vida, talvez somente para suprir a falta de amor que vinha de seus pais, Porém, quando ela estava no apogeu de seu sentimento pelo moço, seus caminhos tomaram rumos diferentes.
Nos primeiros dias após tão dolorosa despedida, não passava um dia sem chorar, até cansar. Preferia fugir, para algum lugar onde não tivesse ninguém. Sentia certo ódio das pessoas todas, por não serem como seu grande amor. 
O desespero foi tanto, que em inúmeras vezes ela tentou suicídio. Remédios em altas dosagens, sufocamento, e até afogamento, foram tentados por ela, nas suas tentativas de burlar o sofrimento gerado pela falta de seu amor.  Seus pais, agora entendendo o que a filha mais moça queria, trancafiaram no quarto, eliminando todos os objetos que ela podia usar para se matar, deixando-a como uma doente perigosa. Logo, cerca de dois meses depois, ela começou a aceitar a realidade dos fatos, que a vida continuava.
E assim foram os anos, vagarosos, passando. Mas ela, por ainda certo efeito desse amor, se mantinha esperançosa, que ainda iria viver o amor com o moço. Uma loucura, insana um tanto. Então a realidade, foi aos poucos se assentando em sua ideia. Viva dias bem alegre e falante com as pessoas de sua casa. Noutros, fechada e silenciosa, remoendo aquela angústia ingrata. 
O tempo foi passando, e seus pais resolveram que assim como ela desejava, iria ser solteira para o resto da vida.  Temiam que o casamento forçado lhe fizesse mal á saúde mental.
Assim aos poucos teve de se despedir de seus entes queridos. Primeiro os pais, depois os irmãos.
O sobrado da família foi se esvaziando. Deixando espaço a uma nova moradora: a solidão,que seria sua eterna companhia.
Apenas os criados ali ficaram junto dela. Mas pouco se viam. Ela passava o dia todo no quarto, escrevendo seus anseios em diários. Mal comia e tão pouco saia de casa, isto que só fazia em caso de extrema necessidade.
Os anos continuavam a passar e passar. Havia cerca de 20 anos que ela não sabia uma notícia de seu amado. Isso era a mais dolorida das feridas. Uma ferida na alma. Uma dor fina e intrínseca.
Lamentava cada novo dia que nascia. Lamentava toda noite que chegava ao fim. Lamentava ainda estar viva. 
Nem a beleza e a sensação de renascer das primaveras lhe animavam mais. Logo vinha os longos invernos, solitários naquele sobrado. 
Da janela ela observava as pessoas que perambulavam pelas adjacências da sua casa. Eram figuras cinzas, sem beleza alguma, vistas por ela. Alguns debochavam dela, chamando de louca e outros apelidos maldosos, á velha moradora do sobrado.
Era uma vida sem vida. 
Um dos únicos lugares que ainda podia sair e que suas forças lhe permitiam ir, era aos sepultamentos dos parentes e conhecidos. Logo voltava para casa e lá se trancafiava, junto das lembranças do passado, estas quais lhe mantinham viva.
Sentia que era covarde, por nunca ter dito á ele, do que sentia. Por não ter fugido de casa, se o caso fosse necessário. Mas ter sim lutado até perder suas forças pelo seu sentimento amoroso. Porém agora não adiantava mais lamentar e se torturar. O baú do tempo havia sido selado e eternamente fechado.
Pensando nisso tudo, a velha senhora, sorri. Sim, sorri. Sorri, pelo fato de ter amado. Pelo fato de ter sentido aquele sentimento inexplicável. Por ter sentido seu sangue pulsar mais forte. Por ter tido um amor, daqueles que fazem as pessoas sentirem-se plenas e completas, só pelo simples fato de amar.
Levanta-se, agora, de sua cadeira de balanço e cerra a janela. Respira fundo e sente que ao fim daquele dia cinzento de inverno, pôde renascer. Renascer de suas próprias cinzas. Pois somente pode renascer das cinzas de seu coração, aquele que ardeu ao Sol, de uma paixão. 

sábado, 10 de agosto de 2013

Piratini, 20 de julho de 2013.

Confesso que não vou te implorar que fique mais um pouco.
Eu queria que ficasse mais um segundo que fosse, isso eu queria.
Prender-te-ia dentro de uma gaiola se fosse o caso.
Mas nada posso fazer.
Nunca me passou pela cabeça te amar. No começo era algo mais carnal, mas aos poucos, fui garimpando tua alma, e descobri o paraíso. Um paraíso proibido a mim.
A cada despedida nossa, o meu olhar se torna mais turvo e pesado. Tu vais indo e indo e eu fico ali, estático sem querer acreditar que nosso pouco e tão valioso tempo se esgotou. Por que ó Deus, por quê?
Eu tenho minha parcela de culpa nisso tudo. Porém quando eu errei, não sabia o quanto tu ias te tornar importante para mim. Pois é.
No “nosso começo de relação-amizade-minha-paixonite”, te achava alguém estranho e sem a mínima graça, sim era assim que eu te via. Achava-te comum, sem o mínimo conteúdo.
Pois é.
Gostar de alguém é como colocar algo redondo perto do início de uma ladeira. Ai, quando começa a rolar aquela atração físico-mental, já era o controle da situação.
Aqui por estas bandas do meu peito, foi bem assim. Tenho medo que o precipício seja alto de mais e eu me estabule no chão.
Pois é.
Uma fase, uma vida toda, não consigo saber. Sou humano de mais para querer entender uma pequena parcela disto.

Sei que isso está impregnando no meu peito e parece que não vai se soltar tão fácil assim...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A Graça da Rua XIV

Sentei-me próximo dela. Buscava, sim, buscava em sua fisionomia algum detalhe que não me fizesse bem aos meus olhos. Tinha em seu olhar ainda a ingenuidade de uma criança, que pouco sabe da vida. Seu perfume era de flores silvestres, que adoravelmente viajava pelo ar, enfeitiçando-me.
Naqueles dias que haviam sucedido, este que vos lhes conto, fazia falta a paz em mim. Nada me alegrava nada me completava. Desde que me mudei para a capital, não havia me identificado com nenhuma outra pessoa. Eram todos diferentes de mim. Seus passos, olhares, modos, nada era como os dos meus conterrâneos, nem como os meus.
Fazia dois meses que havia vindo morar em Porto Alegre, por que em minha cidade não havia faculdade de medicina. Meus pais se preocupavam com os meus estudos, e não queriam que tivesse o triste destino de permanecer na pequena Vila de Piratini.
Corriam os primeiros anos do século XX, várias mudanças ocorriam pelo mundo afora, e aqui no Rio Grande do Sul não era diferente.  No lugar de velhas carroças, surgiam os primeiros carros, poucos, mas já estavam em circulação nas poucas ruas já pavimentadas da capital. Existiam postes, abastecidos com óleo de sardinha, que iluminavam as ruas da cidade, até pouco depois da meia-noite.
Morava numa pequena pensão situada numa rua adjacente próxima da Rua da Praia, onde passava quase todo dia estudando e dando o melhor de mim, para que quando mandasse uma carta aos meus pais, pudesse lhe reportar alegria e lhes dar o orgulho de ter seu único filho formado, como médico. Se desse sorte, podia ir medicar em minha terra natal. Só imaginava minha velha mãe, orgulhosa de seu filho, lendo a luz de vela minha carta.
Mas isso levaria tempo.
Não podia me dar ao deleite de apaixonar-me por a filha do banqueiro, isso podia me atrapalhar em meus estudos.
Todos os dias quando saia da pensão, pondo-me a caminho da faculdade, a via saindo de casa, sempre acompanhada de seu irmão mais velho. Não deixava que percebesse que eu a admirava, e, quase pechava nas senhoras que ia a missa pela manhã. Uma vez que era órfã de mãe, sempre acompanhava seu irmão no trabalho deste no banco da família. Por certo, achava cansativo passar o dia todo solitária no sobrado da família, e seu pai preferia ter sua bela caçula sob seu rigoroso olhar. Ficava o dia todo junto de seu pai, em sua sala, no banco.
Seus longos cabelos castanhos claros eram levemente atados por uma delicada fita de cetim, de cor azul claro. Eram os mais belos de todas as moças da capital, e quiçá do universo. Pelo menos para mim eram. Longos, eram singelamente embalados pela leve brisa do ar matinal que soprava do Guaíba. Suas pequenas mãos delicadas eram cobertas por luvas brancas, que apertavam uma pequena bolsinha que sempre carregava consigo. Vestia-se sempre com belíssimos vestidos, sempre feitos dos mais caros e valiosos tecidos, que seu pai mandava fazer com a modista francesa que tinha uma loja na Rua dos Andradas.
Em meus mais íntimos pensamentos, despia-a em meu subconsciente, e projetava tal formosura, onipotentemente superior á uma das três graças acompanhantes da Primavera, obra do pintor renascentista Botticelli. Mas podia ele criar figura tão divina quanto aquela que alimentava meus olhos todas as manhãs?
Docemente dei-lhe o doce apelido de “A Graça da Rua XIV”.
Seguiam os dois de braços dados, misturando-se nas pessoas que perambulavam pela rua, em frente a sua casa. Logo sumiam num esquina a seguir.
Voltei a mim, aqui nesta confeitaria, da Rua do Porto, onde eu e meus colegas de faculdade saímos para o almoço. Ela estava acompanhada de seu pai, que não tirava os olhos de seu jornal. A filha, a bela filha, estava a beber um chá de canela, numa delicada xícara de porcelana turca, que soltava para cima um vapor, este que sumia no ar, depois de subir-lhe pela maçã do rosto.
Comia o almoço, mas não conseguia retirar o olhar da bela moça, e ali a poucos metros, respirava seu doce perfume, que absorvia pelas minhas narinas.
Meus colegas, já haviam notado minhas intenções com a moça, e como eu sabiam que meu desejo a se realizar, seriam um tanto impossível.
Tinha medo que ela percebesse e comentasse com seu pai ou irmão, e estes ficassem com raiva de mim, por cobiçar a jovem. Deveria ser prometida a algum herdeiro de alguma abastada família da região. Já eu não detinha este status nem posição social que nem os demais rapazes que faziam a corte a ela.
Seu pai, ao notar o garçom da confeitaria estava ali de pé ao seu lado para fazer o pedido, disse que desejava o mesmo de sempre para almoçar e perguntou a sua filha o que ela desejava para comer. Ela chamava-se Luciana, soube seu nome assim que seu progenitor lhe perguntou sobre o almoço. Ela concordou com o pai, em almoçar o de sempre. Assim, de seus carnudos lábios saiu uma doce voz, calma como água de um cristalino lago e mais suave que um Adágio de Mozart ou Albinoni, dedilhados num novíssimo piano de puro marfim.
Logo após o pedido dela, ainda como os olhos presos em sua figura, percebi que ela me olhava. Sim, ela me olhava, discretamente olhava-me no fundo dos meus olhos, como quem procurava desvendar minha alma...
Talvez por medo que seu pai desconfiasse disso e lhe advertisse, baixou os olhos num rápido movimento e pôs seu belo par de olhos azuis na toalha da mesa. Docemente pôs o guardanapo no colo e manteve-se com o olhar baixo na mesa.
Resolvi não lhe olhar demasiadamente, pois fiquei com receio de constrangê-la, e decidi deter meu olhar apenas na minha refeição que já estava findando.
Quando me dei por conta, após terminar meu almoço, a mesa onde seu pai e ele estavam apostos, fazia-se vazia.
Não perguntei a nenhum dos meus colegas sobre onde ela havia ido.
Terminamos o almoço. Todos contavam anedotas, causos que ocorriam fora das vidraças da confeitaria e além dos limites da cidade, assuntos que eram comumente debatidos pelos jovens da capital. Mas a mim se faziam desinteressantes e obsoletos, uma vez que a imagem da senhorita não abandonava minha imaginação. Ah perturbadora visão dos céus! Era como se aqueles poucos minutos em que a olhava e deleitava-me com seu perfume, pudessem-me fazer flutuar, envolto em delicada seda divina!
Resolvi arrancar esta imagem de minha cabeça, pois tinha outros assuntos a tratar referentes a faculdade.
Pois assim fiz, de todas as maneiras me afastei de seu caminho. Nunca mais passei em frente a sua casa, nunca mais almocei naquela confeitaria, e quando sua majestosa imagem me vinha tona em pensamento, tratava de me esbofetear para cair em mim e me ocupar com outros pensamentos.
E consegui.
Sua imagem, aos poucos fora desaparecendo dentro de mim, como alguma forma em uma manhã de cerração, ao passo que vai se afastando, mais difícil de divulgar torna-se.
Ainda hoje, anos depois destes fatos, vez que outra me pergunto: - Por onde andará a bela Luciana, a minha, só minha Graça da Rua XIV?


Nota: Caso você tenha notado, a história acima ficou um tanto sem pé nem cabeça, nem o título se torna convincente, e muito menos o fim. Apenas deixei minha fértil imaginação criar este texto. E.V;

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Insônia

Consigo perceber minha quente e incessante respiração. Desperto.
Arrasto meu rosto no lençol, pondo-o em cima do travesseiro. É uma mania minha não ficar com o rosto em cima deste.  Viro a face em direção á janela. Lá está apenas a silhueta da cortina xadrez, pois o resto ainda é apenas penumbra da madrugada. Ainda não clareou o dia e a madrugada está perto de seu fim. Logo os pássaros irão com alegria anunciar um novo dia de primavera, e a luz do alvorecer irá majestosamente invadir meu quarto.
Meu corpo mantem-se fiel à cama, e meu rosto está amassado junto ao travesseiro. Fico com os olhos parados e estáticos presos á janela. Meu pensamento está oco, como o tronco de uma velha árvore, puído pelo tempo. Nada se passa ali. Assim fico melhor, sem me preocupar com nada ou alguém.
Não sei, mas não consigo voltar a dormir, como se o sono fugisse de mim. Ah mas isso parece loucura! Não voltar a dormir, justo hoje numa aprazível manhã de domingo de primavera. Bem por que eu não sei, mas não consigo.
Lá fora, algo pisca, mas eu sei que é a lâmpada do poste que tem aqui na rua, de fronte a minha casa. Quando ficava sem sono, costumava ficar olhando para a lâmpada, mas agora ela está fraca e pouco ilumina a rua. Nem meus pensamentos.
Há também o estridular dos grilos, que freneticamente cantarolam rua a fora. Talvez sejam estes os únicos seres além de mim a estarem acordados esta hora. Dizem os mais velhos, que quanto mais escura à noite, mais claro é o canto dos grilos. Cri Cri Cri.
O rádio relógio atesta que são 5h e 36 min.
Maldita insônia não me permite dormir. Agora, depois de ver as horas, meu pensamento se inunda de ideias, preocupações, e coisas desse tipo.
Por vezes sinto que meu subconsciente se torna igualado á um cemitério abandonado, onde, mesmo que vivas algumas pessoas tornam-se iguais a velhos jazigos, pois aos poucos foram morrendo em minha vida, e que teimosamente ainda as levo flores, em sinal de saudade.
Há em cima de mesinha no lado da minha cama, uma folha de papel e uma caneta destampada, que deixei escrita uma poesia inacabada. O sono e a falta de inspiração me obrigaram a deitar-me. Aborreço-me muito rápido das coisas, a por muitas vezes das pessoas. Mas não gosto de ser assim. Foi o que ocorreu com a poesia. Logo dela me aborreci, e nem tomei todo café que havia feito para passar a noite escrevendo. Logo esfriou, a inspiração se foi. Fui deitar-me. E com o sono também ocorreu...