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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Lenda da Cruz de Pedra

Dentre as muitas lendas que povoam o imaginário dos moradores do interior do município de Piratini, na região sul do estado do Rio Grande do Sul, algumas delas conhecemos desde que nos conhecemos por gente. Uma dessas lendas que sempre ouvia contar por parte dos mais velhos da minha família é o da Cruz de Pedra, e ao mesmo tempo em que nos dirigíamos para a nossa propriedade localizada no Pedregal, no 3° distrito de Piratini, ao cruzar pela estrada que nos levava até lá, víamos a tal cruz, erguida em uma curva, na barranca da estrada.
De todos os mais velhos habitantes da localidade, situada ao sudeste do município, quase em divisa com Canguçu, tais como a minha avó Marina Pinheiro e a tia bisavó, Vani Farias, não sabem ao certo quem era o dito homem sepultado ás margens da estrada.

Relembrando os causos que a minha bisavó, nascida e criada ali contava, segundo a discrição de minha avó: Há mais de cem anos, pouco mais, pouco menos, era muito costumeiro os homens residentes no interior do município irem aos “bolichos”, pequenas vendas de beira de estrada comuns no interior, para beberem, jogarem cartas, ou até mesmo para jogarem conversa fora. Um homem (não há muitas informações acerca da identidade dele) teria uma infeliz sorte. Segundo a tradição oral da família, ao por o pé no estribo (peça geralmente feita de ferro, usada com a finalidade de apoiar o pé do cavaleiro, presa á cela), já bêbado, teria colocado todo o pé e ficado preso, de modo que não conseguiu se soltar mais. O cavalo ao perceber o desespero do dono, bateu em retirada, pondo-se á galopar incessantemente pelo corredor (atualmente uma estrada), e assim fazendo o pobre homem cair, sendo arrastado até a morte chão á fora. Ao ser surrado pela terra o corpo do homem foi totalmente dilacerado, deixando pela estrada vários pedaços de seu corpo. Ao longo do caminho, onde foram recolhidos seus restos mortais, foram colocadas pequenas cruzes e no local onde o último pedaço de carne humana foi recolhido, os habitantes das redondezas ergueram uma cruz em memória deste homem. O nome do principal personagem caiu no esquecimento. Com o passar do tempo, a história acabou por ser conhecida apenas pelo nome de “Cruz de Pedra”. A estrada que liga a localidade do Rodeio Velho até a Capela recebeu o nome de Estrada da Cruz de Pedra.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Morrer.

Sopro gelado
Num segundo,
Meu destino é traçado.
Minhas vestes, antes limpas,
Agora serão recobertas de um pó imundo.

Fecham-se os olhos,
Fecham-se tudo.
Nunca mais apertados abraços cheirosos,
Nem sequer um suspiro
Termina uma vida, num final tão duro.

Muito mais que um corpo, velho e cansado
Uma história ali é
Velado.

Minha alma, ninguém sabe pr’onde vai.
Para muito longe talvez,
Ou pra perto do grande pai.

Morte é um impulso primitivo da vida
E desde que nascemos,
Segundo após segundo,
Morremos.

Muito mais que um funeral,
Que enterra um corpo
Histórias de uma vida realmente vivida,
Não se perdem nesse final...



Pedregal, 3° distrito de Piratini. 
Pinheiro, Erasmo.

sábado, 21 de setembro de 2013

Uma Guerra só Minha.

O que falar acerca da mornidão da vida?
O mesmo fantasma maltrapilho
Que pela frente de meus olhos todo dia desfila?

Nada muda
Todo dia a mesma lamúria
Só campeio as mesmas tristezas que aos meus olhos,
Despejam ifinita penúria,

De felicidade
Sem nenhuma ajuda.

Laivos de alegria teimam vez que outra,
Subir ao palco da minha vida
Como uma provocação pelo ar solta.

Esmago meu coração,
Dilacero-o
Sem dó nem compaixão
Por mim mesmo.
Prostrando-me sobre restos de um sentimento
Que já quase morto, adormecido e enfermo,
No leito do tempo.

Deste leito, ao seu lado, talvez tenha eu,
Acompanhar-lhe ate o meu,
Fim,
Terei de ficar.
Ele bem que poderia,
Sucumbir a mim,
Ou eu á ele.
Daria uma nota se pudesse,
Para ver, onde esta guerra só minha,
Chegaria.

Pinheiro, Erasmo. 

-Piratini, 21 de Setembro de 2013.

sábado, 14 de setembro de 2013

Mais uma história, sem o "Final Feliz".

Fins de julho. O ano era de 1890.
Sentada á beira da janela num fim de tarde de inverno. O vento que vinha galopando pelas coxilhas do Pampa, agora adentra as janelas do velho sobrado. Sim, aquele velho sobrado no centro de Pelotas, fronteado para a praça da igreja, serve de residência para a velha senhora de cerca de 80 anos.
A única companhia que a vida lhe deixou, foi a própria solidão, que se mantinha fiel á ela. Presente em todos os momentos de sua vida, desde que ela tinha 17 anos. Desde então sua vida se tornou insólita e vazia, deixando- a viver como um ser vazio.
Seus olhos azuis foram à última beleza que a vida por devaneio talvez, não lhe tirou. Estes eram sempre, nos fins de tarde, presos na imensidão do horizonte. Procuravam, aquele rapaz, que a tantos ano havia deixado de fazer parte de sua vida. Deixado talvez não, pois ele sempre vinha visitar ela, quando esta fechava suas pálpebras, desejando com todas suas forças que ele estivesse ali, dentro de um mundo só dela. Era apenas fisicamente ausente.
 Um mundo aonde, ele ainda vinha lhe ver, com aquele sorriso doce, que somente ele sabia esboçar.
O vento frio transpassava sua pele enrugada e seus cabelos fracos e tordilhos pelo rigor dos anos. Balançava as cortinas de seu quarto. Sabia que o frio lhe faria mal a saúde, já debilitada pela idade. Mas nada mais lhe importava. Talvez queria mesmo que a ceifa da morte lhe tragasse a vida.
Não tinha nada mais a desejar da vida. Faziam quase 63 anos que havia se despedido de seu único amor. E aquela imagem era, em sua lembrança tão nítida, mesmo havido transcorrido mais de meio século. Era um dia de Sol, numa manhã. Ainda sim podia sentir novamente sua respiração acelerar, e suas mãos tremerem. Aquele dia havia fica marcado para sempre, como um divisor de águas, que dia após dia, ia lhe matando. Mas que por maldade divina não lhe matava de uma vez só. Se bem que cada dia que vivemos, é um a menos que temos de vida. Foi uma difícil despedida.
Eram bons amigos. Uma dessas amizades que surgem do nada e se tornam a cada dia mais forte. E ela, a pobre moça, teve a sublime e infeliz sorte de se apaixonar pelo amigo. É, assim do nada, um dia notou que amava incondicionalmente seu amigo. E não se via mais sem ele por perto. Olhava, desde então o mundo com os olhos brilhando, inundados deste amor.
Um moça, que já era, desde muito nova, prometida pelos pais á uma primo que morava distante dali. E este amigo, agora á ela confidenciava suas desventuras amorosas. E ela sofria junto dele, em silêncio, e nada podia falar. Sabia que o coração dele era do mundo, das artes, era livre. E aquilo foi somente crescendo dentro dela. Havia encontrado aquele que sempre havia habitado seus sonhos, os mais magníficos sonhos.
A cada dia que conhecia-o mais, mais tinha certeza de que era ele quem moraria dentro de seu peito para toda sua vida.
Foi á época mais feliz da vida dela. A época em que sentia flutuar sentia seus pulmões se encherem de ar e dar ânimo ao sua alma.  Na simplicidade de seu amor, somente de tê-lo presente em suas manhãs, já era uma vitória sem preço. Agora ela, no fim de sua vida, podia perceber que aquele amor viera em sua vida, talvez somente para suprir a falta de amor que vinha de seus pais, Porém, quando ela estava no apogeu de seu sentimento pelo moço, seus caminhos tomaram rumos diferentes.
Nos primeiros dias após tão dolorosa despedida, não passava um dia sem chorar, até cansar. Preferia fugir, para algum lugar onde não tivesse ninguém. Sentia certo ódio das pessoas todas, por não serem como seu grande amor. 
O desespero foi tanto, que em inúmeras vezes ela tentou suicídio. Remédios em altas dosagens, sufocamento, e até afogamento, foram tentados por ela, nas suas tentativas de burlar o sofrimento gerado pela falta de seu amor.  Seus pais, agora entendendo o que a filha mais moça queria, trancafiaram no quarto, eliminando todos os objetos que ela podia usar para se matar, deixando-a como uma doente perigosa. Logo, cerca de dois meses depois, ela começou a aceitar a realidade dos fatos, que a vida continuava.
E assim foram os anos, vagarosos, passando. Mas ela, por ainda certo efeito desse amor, se mantinha esperançosa, que ainda iria viver o amor com o moço. Uma loucura, insana um tanto. Então a realidade, foi aos poucos se assentando em sua ideia. Viva dias bem alegre e falante com as pessoas de sua casa. Noutros, fechada e silenciosa, remoendo aquela angústia ingrata. 
O tempo foi passando, e seus pais resolveram que assim como ela desejava, iria ser solteira para o resto da vida.  Temiam que o casamento forçado lhe fizesse mal á saúde mental.
Assim aos poucos teve de se despedir de seus entes queridos. Primeiro os pais, depois os irmãos.
O sobrado da família foi se esvaziando. Deixando espaço a uma nova moradora: a solidão,que seria sua eterna companhia.
Apenas os criados ali ficaram junto dela. Mas pouco se viam. Ela passava o dia todo no quarto, escrevendo seus anseios em diários. Mal comia e tão pouco saia de casa, isto que só fazia em caso de extrema necessidade.
Os anos continuavam a passar e passar. Havia cerca de 20 anos que ela não sabia uma notícia de seu amado. Isso era a mais dolorida das feridas. Uma ferida na alma. Uma dor fina e intrínseca.
Lamentava cada novo dia que nascia. Lamentava toda noite que chegava ao fim. Lamentava ainda estar viva. 
Nem a beleza e a sensação de renascer das primaveras lhe animavam mais. Logo vinha os longos invernos, solitários naquele sobrado. 
Da janela ela observava as pessoas que perambulavam pelas adjacências da sua casa. Eram figuras cinzas, sem beleza alguma, vistas por ela. Alguns debochavam dela, chamando de louca e outros apelidos maldosos, á velha moradora do sobrado.
Era uma vida sem vida. 
Um dos únicos lugares que ainda podia sair e que suas forças lhe permitiam ir, era aos sepultamentos dos parentes e conhecidos. Logo voltava para casa e lá se trancafiava, junto das lembranças do passado, estas quais lhe mantinham viva.
Sentia que era covarde, por nunca ter dito á ele, do que sentia. Por não ter fugido de casa, se o caso fosse necessário. Mas ter sim lutado até perder suas forças pelo seu sentimento amoroso. Porém agora não adiantava mais lamentar e se torturar. O baú do tempo havia sido selado e eternamente fechado.
Pensando nisso tudo, a velha senhora, sorri. Sim, sorri. Sorri, pelo fato de ter amado. Pelo fato de ter sentido aquele sentimento inexplicável. Por ter sentido seu sangue pulsar mais forte. Por ter tido um amor, daqueles que fazem as pessoas sentirem-se plenas e completas, só pelo simples fato de amar.
Levanta-se, agora, de sua cadeira de balanço e cerra a janela. Respira fundo e sente que ao fim daquele dia cinzento de inverno, pôde renascer. Renascer de suas próprias cinzas. Pois somente pode renascer das cinzas de seu coração, aquele que ardeu ao Sol, de uma paixão. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O suicida do casarão

Na frente do espelho,
Surge uma imagem.
Nem novo nem velho,
Levantar seus olhos não tinha coragem.
Sentia que era fraco e covarde.

Saiu dali,
Passeava por toda a sala.
Guardava todas as lembranças dentro de uma mala.
Não sabia para onde iria
Talvez para onde o vento lhe levar
Neste imenso mundo.
Mas não queria mais deixar este lugar
Por mais feio, velho e imundo,
Que fosse este casarão.

Sair dali seria como perder um pedaço do coração
E viver sem razão.
Sabia que não podia mais ficar
O tempo corria
Mas se pudesse um tijolo que fosse ele iria levar,
Para que quando a saudade apertar
Pudesse-lhe uma pequena lembrança fitar.

Fecharam as portas
E janelas também.
Uma lágrima escorria pelo rosto.
Mas preferiu virar as costas
Do que ver com tanto desgosto,
Botarem abaixo,
O velho casarão.

Seguiu sem olhar para trás
Logo adiante ouviu o som
De uma destruição vorás.
 Nada mais restara
Ficaria guardado como um sonho bom.

Dentro da mala havia algo que agora se lembrou:
De um punhal,
Que há muitos anos seu avô lhe presenteou.
Para este sem-eira-nem-beira,
Seria uma solução afinal.

Parou a caminhada
Olhou para as ruínas do casarão
E seguidamente para a afiada navalha.
Nisso acelerou seu desiludido coração.
Sentia-se um covarde
Mas nada mais esperava da vida.
Agora sem ninguém e sem nada,
Decidiu com sua vida acabar sem alarde.

Espetou o punhal em seu peito,
E seu sangue pela lama foi escorrendo.
Morto, caiu  no chão, com todo jeito,
E ali perto das ruínas do casarão,
Aos poucos foi morrendo.

Infeliz algoz da maldade.
No outro dia corria nas manchetes,
Por toda a cidade,
A noticia de boca em boca, 
Tristeza e comoção,
Na primeira página anunciava,
"O suicida do Casarão"...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Jaz aqui o silêncio

                                          
Jaz aqui o silêncio...

De quem, para todo sempre partiu.
Saudades não trazem ninguém de volta
Pelo meu corpo, um vento frio,
Arrepia-me nesta hora

A solidão me faz companhia
Neste meu pesado olhar na janela
Agora sinto a pesada realidade
De meu quarto se transformar numa cela.
Talvez a morte seja minha libertação,
Mas nela penso como uma interrogação.


Dos que se foram apenas a inquietante recordação
Festas, risadas e bailes,
Parece que ainda posso ver com perfeição
Todos a dançar tão alegres!

Daquele tempo saudoso só restou a mim
Já velho e sem forças
E agora neste meu fim
Choro de saudades


Parece que agora a morte me ronda
Mas a sua presença me nego a notar.
Tenho de ser forte
Para que ela mais um instante,
Deixe-me ficar.

Jaz aqui o silêncio...

O velho gramofone parou
A música também
Assim que o músico se calou,
E o padre pronunciou amém.

Quando eu me for,
Para o céu ou o inferno,
Cessará o ardor.
A última viagem
Do trem da morte,
Contemplarei a sombria paisagem,
E lá chegando,
Comerei do último fruto.

Espero lá encontrar
A todos e poder abraçar.
Como antes,
Cantarolar e dançar

Jaz aqui o silêncio...

Desta vida nada levarei
Apenas a certeza que feliz eu fui
E muito eu amei.
E assim quando a dama da morte chegar,
O gelado orvalho sobre mim cair,
Preparado eu estarei...

Jaz aqui o silêncio,
E a mim também.
Para todo o sempre,
Amém...